Nos últimos três anos, o chamado golpe do falso advogado causou um prejuízo estimado em R$ 2,8 bilhões a clientes em todo o Brasil. Criminosos se passam por advogados reais, usam dados verdadeiros de processos e pressionam a vítima a transferir dinheiro com urgência.
O alvo preferido é quem tem uma ação na Justiça e está prestes a receber algum valor. O golpista promete acelerar a liberação desse dinheiro, desde que a vítima pague antes uma suposta taxa, custa ou imposto.
O crime se espalhou junto com a digitalização da Justiça e com os aplicativos de mensagem, e hoje atinge pessoas de todas as idades e regiões do país. Por ser uma fraude que mistura informação verdadeira com encenação, ela engana inclusive quem costuma ser cuidadoso com golpes financeiros.
Neste artigo, você vai entender como o golpe do falso advogado funciona, por que ele engana até pessoas atentas e o que clientes e escritórios podem fazer para reduzir o risco.
Como funciona o golpe do falso advogado
O golpe começa com um contato que parece legítimo. A vítima recebe uma mensagem no WhatsApp, uma ligação ou um e-mail de alguém que diz ser seu advogado, muitas vezes com a foto, o nome e o número de registro corretos do profissional.
A abordagem traz uma boa notícia: a causa foi ganha ou há um valor a ser liberado. Logo em seguida vem o pedido de pagamento adiantado, apresentado como custas processuais, taxa judicial ou imposto.
Para parecer confiável, o criminoso costuma informar:
- nome completo do cliente;
- nome do advogado e do escritório;
- número e fase do processo;
- valores que a vítima espera receber;
- um motivo urgente para pagar agora.
Esse roteiro costuma seguir sempre a mesma lógica. Primeiro, o golpista se apresenta e cita detalhes do processo para ganhar confiança. Em seguida, anuncia que há dinheiro a receber e indica uma conta para o pagamento de uma suposta taxa. Quando a vítima transfere, o valor é rapidamente movido para outras contas, o que dificulta o rastreamento e a recuperação.
Desde 2024, a OAB-SP recebeu mais de 3 mil denúncias de pessoas abordadas por falsos advogados pedindo pagamentos indevidos, principalmente via Pix. (Fonte: Agência Brasil)
A maior parte desses dados não é secreta. Segundo a OAB-RJ, cerca de 99,9% dos processos hoje são eletrônicos, e informações como nome das partes, telefone e fase processual ficam acessíveis em ações que não tramitam em segredo de justiça. É a partir desses registros públicos que o criminoso monta uma abordagem sob medida para cada vítima.
Por que o golpe é tão convincente
A fraude funciona porque combina dados reais com pressão emocional. Quando o cliente vê o próprio nome, o número do processo e o nome do advogado, é natural baixar a guarda.
Mais do que tecnologia, o golpe se apoia em engenharia social, ou seja, na manipulação psicológica de quem está ansioso por um desfecho. A expectativa de receber um valor, somada à pressa imposta pelo criminoso, reduz a capacidade de análise da vítima no momento da decisão.
A tecnologia tornou tudo mais perigoso. Em 2026, a Polícia Civil de São Paulo prendeu suspeitos que usavam inteligência artificial para clonar a voz de advogados e enviar áudios convincentes pelo WhatsApp. Em vários estados, a OAB também já registrou vídeos manipulados e perfis falsos em redes sociais.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Apenas no Paraná, foram 2.103 denúncias em 2025, e em mais de um quarto delas houve prejuízo financeiro. Em Joinville (SC), uma cliente chegou a depositar R$ 20 mil acreditando falar com seu advogado. Em Juazeiro (BA), pelo menos 15 profissionais tiveram a imagem usada por golpistas, e o prejuízo dos clientes passou de R$ 100 mil.
Há também o lado humano por trás das estatísticas. Em um dos casos, uma idosa perdeu quase R$ 7 mil ao acreditar que precisava pagar uma taxa para receber valores de uma ação. O resultado é que áudios e até vídeos deixaram de ser prova de autenticidade, e um cliente comum não tem como distinguir, sozinho, um contato verdadeiro de uma imitação bem-feita.
Sinais de alerta para identificar o golpe do falso advogado
Alguns sinais se repetem na maioria dos casos. Reconhecê-los é a primeira forma de proteção contra o golpe do falso advogado.
1. Pedido de pagamento para liberar valores. O Judiciário não cobra Pix nem boleto para liberar dinheiro de processos; o valor sai por meio de alvará, após depósito em juízo.
2. Contato vindo de um número novo, com a alegação de que o advogado trocou de telefone.
3. Urgência exagerada, como precisa transferir agora ou o prazo vence hoje.
4. Transferência para conta de terceiros, com nome diferente do advogado ou do escritório.
5. Áudios ou vídeos pedindo pagamento, mesmo que a voz pareça a do profissional.
Vale lembrar que processos judiciais costumam levar meses ou anos. Por isso, qualquer pedido para resolver tudo em minutos deve acender um alerta. Diante de qualquer um desses sinais, a recomendação dos especialistas é simples: pare e confirme antes de pagar.
O que fazer ao suspeitar de um contato
A regra de ouro é não decidir sob pressão. Antes de transferir qualquer valor, confirme a identidade de quem fala com você por um canal que você já conhece.
Veja os passos práticos:
1. Não pague nem envie documentos de imediato.
2. Ligue para o número oficial do escritório que você já tinha salvo, nunca para o número que enviou a mensagem.
3. Confirme se realmente existe um valor a receber e como ele será liberado.
4. Guarde prints, comprovantes e o número usado pelo golpista.
Uma das medidas mais simples que escritórios têm adotado é oferecer ao cliente uma forma direta de confirmar a identidade do contato. Ferramentas de verificação como o Confirma.legal permitem que o cliente cheque, por um código temporário, se está mesmo falando com seu advogado antes de pagar ou enviar documentos.
Se o pagamento já tiver sido feito por Pix, acione o banco e peça a abertura do Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado pelo Banco Central. O pedido pode ser feito em até 80 dias, e o banco tem até 7 dias úteis para responder. Registre também um boletim de ocorrência na Delegacia Virtual e comunique a OAB do seu estado, que acompanha esse tipo de prática e pode orientar os próximos passos.
O papel do escritório na proteção dos clientes
Quando um golpista usa o nome de um escritório, o prejuízo não é só do cliente. A confiança e a reputação construídas ao longo de anos também ficam em risco.
Por isso, proteger a comunicação faz parte do compliance do escritório. Orientar os clientes logo no início do atendimento, definir um canal oficial e criar um procedimento claro de confirmação reduzem riscos sem complicar o dia a dia. Vale, inclusive, avisar de forma proativa que o escritório nunca solicita pagamentos por mensagem para liberar valores.
Adotar uma camada simples de verificação também é um diferencial competitivo: mostra cuidado e reforça a relação de confiança. Para aprofundar o tema, vale ler nosso artigo sobre segurança e compliance na comunicação jurídica e explorar outros conteúdos na categoria Segurança e Compliance.
Conclusão
O golpe do falso advogado se aproveita de dados reais, urgência e tecnologia para roubar dinheiro de clientes que apenas aguardam o desfecho de um processo. A boa notícia é que um hábito simples, confirmar antes de pagar, evita a maior parte dos prejuízos.
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